Capítulo 2

POV: Luiza Mazzetti

O silêncio daquela casa de praia costumava ser o meu som favorito no mundo, o meu refúgio de infância, mas, nas últimas semanas, ele tinha se tornado um eco incômodo e doloroso dos meus próprios pensamentos.

Apertei um pouco mais o casaco de tricô cinza-chumbo contra o corpo, sentindo o vento frio e úmido do fim de tarde que vinha do mar de Camburi atravessar a varanda de madeira rústica. A praia lá embaixo estava completamente deserta, uma imensidão de areia escura batida pela maré alta. O céu, tomado por nuvens carregadas e num tom de chumbo quase poético, combinava perfeitamente com o meu estado de espírito. Olhei para a caneca de cerâmica entre as minhas mãos, observando o vapor do chá de camomila subir lentamente antes de se dissipar e desaparecer no ar gelado, exatamente como cada um dos planos que eu exaustivamente tinha feito para o meu ano.

Se alguém me dissesse, há meros seis meses, que eu passaria o início de 2026 isolada no litoral norte, fugindo de tudo e de todos como uma fujona, eu provavelmente daria risada. Eu sempre fui a definição de uma mulher urbana: controladora, focada, viciada no movimento de São Paulo e na falsa estabilidade de ter o roteiro da minha própria vida rigidamente planejado na agenda. Mas a vida tem um jeito muito peculiar — e violento — de nos lembrar que o controle é apenas uma ilusão.

O término do meu noivado com o Gustavo não tinha sido apenas o fim de um relacionamento de quatro anos; tinha sido a demolição controlada de uma estrutura inteira que eu levei quase uma década para idealizar. Não houve uma grande briga cinematográfica, nenhuma traição escandalosa exposta que justificasse o ódio ou me desse o direito de sentir uma raiva limpa. Foi pior. Foi o desgaste silencioso da rotina, a descoberta fria e gradual de que o homem que prometia ser o meu futuro já não me enxergava mais quando olhava para mim do outro lado da mesa de jantar.

Eu ainda conseguia lembrar, com uma nitidez que fazia meu peito arder, do som do zíper das malas dele se fechando no nosso apartamento na Vila Madalena. Quando ele passou pela porta pela última vez, parecia que não estava levando apenas as roupas dele, mas também a minha identidade, as minhas certezas e a pouca paz que eu achava que possuía. Fiquei com o apartamento vazio, com os prazos de entrega dos projetos e com a dolorosa sensação de insuficiência.

Para complementar o cenário de caos, o escritório de arquitetura onde eu passei os últimos anos me matando de trabalhar para me tornar sócia enfrentava a pior crise financeira desde a sua fundação. Escolhas erradas de gestão do meu ex-sócio — que me escondeu planilhas rombadas por meses — caíram como uma bomba no meu colo exatamente na mesma semana do término. Eu estava exausta. Fisicamente, mentalmente e emocionalmente esgotada de tentar segurar os pilares de um prédio que já estava desmoronando. Minha mãe ligava dia sim, dia não, com aquele tom de voz falsamente casual que tentava mascarar a pena que sentia de mim. Eu não aguentava mais fingir que estava "lidando bem com as coisas".

Por isso eu fugi. Peguei a chave da casa de veraneio da minha tia Ester, joguei algumas mudas de roupa e o meu notebook numa mala de viagem e peguei a rodovia dos Tamoios de madrugada, sem olhar pelo retrovisor. Eu precisava urgentemente de um tempo para recolher os meus próprios fragmentos de vidro antes de tentar reconstruir qualquer parede da minha vida. Esta casa era o único lugar no mundo onde as minhas memórias eram puras e felizes.

Ou, pelo menos, quase todas elas.

— Luiza? — a voz mansa de Sandra, a governanta que cuidava da propriedade e que me conhecia desde que eu era uma menina cheia de sardas correndo pela areia, me chamou da porta de vidro de correr que dava para a sala de estar. — O rapaz do hortifrúti acabou de entregar as compras que você pediu pelo aplicativo. Já higienizei as frutas e deixei tudo organizado na bancada della.

— Obrigada, Sandra. De verdade. Eu já vou lá guardar o restante — respondi, forçando um tom de voz leve que arranhou a minha garganta de tão artificial.

— Ah, e só um aviso... — ela hesitou, segurando o pano de prato nas mãos enquanto olhava de soslaio através do vidro em direção à mansão vizinha. A propriedade ao lado era imensa, uma estrutura de arquitetura moderna e imponente que ficava a poucos metros de distância, separada da nossa apenas por uma cerca viva alta de camélias e um gramado extenso. — Os seguranças da casa do lado chegaram há cerca de uma hora. Uma movimentação estranha de carros. Parece que o dono vai passar uma temporada por aqui. A calmaria da nossa rua deve dar uma trégua nos próximos dias.

Meus músculos tensionaram imediatamente sob o casaco de tricô. O vislumbre daquela fachada cinza e imponente, que antes me causava apenas indiferença, fez meu estômago dar um nó familiar de pura irritação.

— O dono... Você diz o próprio? O intocável? — perguntei, e minha voz perdeu qualquer traço da leveza forçada, dando lugar a um tom ríspido.

— Sim, menina Luiza. O Neymar — Sandra suspirou expressivamente. — Com a quantidade de confusão que o nome daquele rapaz atrai na televisão ultimamente, a paz de Camburi está com os dias contados.

Quando os passos de Sandra ecoaram de volta para o interior da casa, olhei para a mansão vizinha com os dentes trincados. Se o Brasil inteiro tinha motivos para julgar ou defender Neymar Jr. pelas polêmicas em campo e fora dele, o meu ressentimento contra aquele homem era estritamente pessoal e profissional. E vinha de família.

No ano passado, o nome dele tinha virado sinônimo de pesadelo na nossa mesa de jantar. Através de seus advogados e fundos de investimento imobiliário, ele havia tentado uma manobra agressiva para comprar não apenas a casa da minha tia Ester, mas também os outros dois chalés históricos daquela ponta da praia. O objetivo? Expandir os limites de sua propriedade e apoiar um projeto de incorporação que, na prática, visava fechar o acesso do público àquela faixa de areia, privatizando o que deveria ser de todos sob o pretexto de garantir sua "segurança e privacidade".

Como arquiteta, a proposta me enojava pelo claro desrespeito ambiental e urbanístico. Como sobrinha, me enfurecia. Minha tia Ester tinha construído aquela casa com o dinheiro de uma vida inteira de trabalho, e as investidas dos assessores dele foram arrogantes, cheias de propostas financeiras astronômicas que assumiam que qualquer um tinha um preço. Minha tia resistiu, bateu o pé e recusou os milhões dele para preservar a nossa história. Mas o processo desgastou a saúde dela, gerou notificações judiciais intimidadoras e deixou uma cicatriz de indignação em todos nós. Para mim, Neymar não era um ídolo injustiçado pela mídia; era a personificação da ganância de quem acha que o dinheiro pode comprar o direito de ir e vir das pessoas e apagar as memórias dos outros.

As luzes da área externa e da piscina de borda infinita da mansão dele estavam começando a se acender automaticamente, banhando o mármore em um tom azulado, ostensivo e frio.

Eu sabia que ele estava enfrentando uma crise monumental pós-Copa e que os portais de fofoca fervilhavam com a notícia de que ele estava se separando de forma definitiva da mãe de suas filhas. Mas, naquele momento, a minha empatia era zero. O homem que tentou roubar o pedaço de terra da minha família para criar uma bolha de isolamento agora estava vindo se esconder exatamente no centro do seu próprio império de privilégios.

Deixei a caneca agora fria sobre a mesa de centro de madeira de demolição e caminhei até o limite da varanda, apoiando as palmas das mãos frias no corrimão. Foi exatamente nesse instante, enquanto a noite caía de vez sobre o mar, que o som pesado de um motor potente ecoou pela rua estreita de terra batida, quebrando a melodia constante das ondas.

Uma van preta de teto alto, com os vidros completamente peliculados e escuros, cruzou o portão de ferro automático da mansão ao lado, seguida de perto por um SUV preto de segurança privada. O veículo maior estacionou na garagem coberta e, após alguns segundos de expectativa silenciosa, a porta lateral deslizou para o lado.

Meus olhos se fixaram magneticamente na silhueta que desceu do carro. Ele usava um conjunto de moletom oversized escuro, o capuz puxado cobrindo quase toda a cabeça, os braços cruzados contra o peito e os ombros visivelmente caídos, curvados sob o peso de um fardo invisível. Ele não olhou para os seguranças, não carregava nada daquela postura extravagante, cheia de marra e joias que a internet exibia exaustivamente. Naquele momento, sob a luz fraca da garagem, ele parecia... cansado. Vulnerável.

Por uma fração de segundo, antes de cruzar o batente e sumir no interior da casa, ele parou no meio do caminho. Como se sentisse a energia pesada do meu olhar direcionada a ele, virou o rosto lentamente em direção à minha varanda. A distância física entre as duas propriedades era razoável, mas a intensidade daquele olhar perdido cruzando com o meu no meio do vento frio fez meu coração dar um sobressalto involuntário, uma batida descompassada bem no centro do peito.

Senti uma onda instantânea de raiva misturada com aquele formigamento estranho na boca do estômago. Dei um passo para trás, quebrando o contato visual, e entrei na segurança da sala iluminada, fechando a porta de vidro com um baque um pouco mais forte do que o necessário.

Eu tinha vindo para o litoral em busca de isolamento, solidão e silêncio absoluto para curar minhas feridas. E a última coisa de que eu precisava era ter que estender a minha calmaria para o homem rico, mimado e arrogante que quase destruiu a paz da minha família. Se ele achava que Camburi seria o seu refúgio, ele ia ter que aprender a lidar com o fato de que nem tudo estava à venda. 

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