Capitulo 1

- POV Neymar -

O zumbido constante das turbinas do jatinho particular costumava me acalmar, mas hoje ele parecia vibrar direto na minha cabeça, amplificando uma enxaqueca que já durava horas. Olhei fixamente para o reflexo do meu próprio rosto no vidro escuro da janela, onde as gotas de uma chuva pesada escorriam em linhas tortas. As olheiras profundas, que nem o boné abaixado conseguia esconder completamente, não eram apenas fruto das noites mal dormidas no Catar ou do desgaste físico absurdo dos treinos. Eram o cansaço da alma.

Mais uma Copa do Mundo tinha ficado para trás. Mais uma vez, o peso de uma nação inteira havia caído sobre os meus ombros e, mais uma vez, a frustração parecia ser a única resposta que o destino tinha guardada para mim. Eu conseguia fechar os olhos e ainda ouvir o som do apito final, o choro preso na garganta, a sensação de que, por mais que eu me entregasse em campo, nunca seria o suficiente para os críticos. Mas, honestamente? O futebol, que sempre foi meu refúgio e o lugar onde eu esquecia o mundo, agora parecia apenas mais uma engrenagem barulhenta no meio do caos que tinha virado a minha vida.

Suspirei pesado, afundando as costas nas poltronas largas de couro creme do avião. Estiquei as pernas, sentindo uma fisgada incômoda no tornozelo — a lembrança física das pancadas que levei em campo —, e peguei o celular sobre a mesa de centro. Por puro masoquismo, passei o dedo pela tela e desbloqueei o aparelho.

A quantidade de notificações era sufocante. Havia mensagens de parças no WhatsApp tentando me animar, alertas do Instagram subindo a cada segundo, e as inevitáveis manchetes dos portais de fofoca que a minha assessoria de imprensa tentava, em vão, monitorar. Passei o olho por uma delas:

"Crise na família? Fontes afirmam que Neymar Jr. e Bruna Biancardi enfrentam momento delicado após o retorno da Copa."

Apertei o botão de bloquear com força, jogando o aparelho no banco ao lado como se ele queimasse minhas mãos. Aquela manchete era só a ponta do iceberg. A internet achava que sabia de tudo, mas não fazia a menor ideia do inferno que estava sendo gerenciar a realidade dentro de quatro paredes.

A decisão de colocar um ponto final no relacionamento tinha partido de mim. Eu passei semanas amadurecendo a ideia, engolindo seco, tentando me convencer de que as coisas poderiam melhorar. Mas a verdade era esfregada na minha cara todos os dias: não dava mais. Insistir naquele casamento seria arrastar um erro por pura conveniência, criando um ambiente tóxico e machucando ainda mais todo mundo, inclusive a mim. Só que a Bruna... ela não aceitou. Não aceitou de jeito nenhum.

Lembrei com amargura da nossa última conversa séria, no casarão antes de eu embarcar. O choro dela, que começou doloroso e logo se transformou em uma indignação fria.

“Você não pode fazer isso agora, Juninho. Olha o momento que você está vivendo. A mídia vai te crucificar, vão dizer que você destruiu a nossa família”, ela tinha dito, com os olhos fixos nos meus, uma mistura de mágoa profunda com uma ponta de ameaça velada sobre como as coisas ficariam dali para frente. Para ela, a gente deveria continuar tentando. Manter as aparências, os contratos publicitários de casal, a imagem da família comercialmente perfeita que o público amava consumir.

O clima entre nós tinha ficado insustentável. Eu amo as minhas filhas mais do que a minha própria vida, e o meu maior pavor, o que me tirava o sono todas as noites, era que essa separação virasse uma guerra pública na internet e que o ódio das redes sociais respingasse nelas. Eu estava pisando em ovos, sentindo que a qualquer momento uma bomba explodiria na imprensa, acionada pela frustração dela.

— Juninho? Tudo bem aí? — a voz do meu pai quebrou o transe dos meus pensamentos.

Ele estava sentado algumas fileiras à frente, com os óculos de grau na ponta do nariz e o notebook aberto sobre as coxas. O semblante dele também não era dos melhores; a testa franzida denunciava a quantidade de problemas que ele estava tentando apagar dali de cima.

— Tudo, pai. Só... pensando um pouco. — Respondi, a voz saindo mais rouca do que eu planejava. Forcei um sorriso que, eu sabia, não enganava o homem que me conhecia desde garoto.

— O pessoal da assessoria de imagem está no telefone comigo há uma hora. Eles montaram uma nota oficial conjunta, discreta, pedindo respeito à privacidade das meninas. Mas a Bruna se recusa a assinar. Ela está irredutível, disse que se a nota sair, ela vai dar a versão dela nas redes sociais.

Eu passei a mão pelo rosto, respirando fundo para não perder o controle.

— Deixa ela esfriar a cabeça, pai. Não força nada agora. Se ela quer expor, não tem o que a gente fazer além de blindar as crianças. Eu só quero paz. Só isso.

— Eu sei, meu filho. Mas você sabe como é a imprensa no Brasil. Quando o jatinho pousar em São Paulo, vai ter paparazzi e repórter até no teto do aeroporto. O plano é o seguinte: a van blindada já vai estar esperando a gente na pista do hangar privado. Vamos direto para a casa de praia, em Camburi. Ninguém sabe que você vai para lá. Os parças queriam armar um churrasco de boas-vindas, mas eu barrei. Você precisa de um tempo completamente isolado antes que essa história estoure de vez.

— Obrigado. Fez bem em barrar o pessoal. Não estou com cabeça para resenha.

"Longe de tudo". A frase do meu pai flutuou na minha mente enquanto eu voltava a olhar para o céu escuro do lado de fora. Como se esquecer que eu sou o Neymar fosse uma tarefa simples. Para onde quer que eu vá, o barulho me acompanha. O julgamento, as câmeras fotográficas, os sussurros nas minhas costas e, agora, a cobrança e o ressentimento da mãe das minhas filhas. Havia dias em que a fama parecia uma gaiola de ouro muito apertada. Eu só queria encontrar um botão de pause. Queria entrar em um lugar onde ninguém esperasse um gol de placa, um sorriso simpático ou uma declaração oficial. Onde eu pudesse tirar o peso do mundo das costas e ser apenas o Juninho.

Senti o jatinho inclinar levemente para a frente, iniciando os procedimentos de descida e rasgando as nuvens pesadas em direção ao solo brasileiro. Eu estava voltando para casa com o coração blindado, exausto de carregar tantas expectativas quebradas e ciente de que a maior tempestade da minha vida pessoal estava prestes a desabar na minha cabeça.

Eu só não tinha a menor ideia de que, no meio de todo aquele barulho ensurdecedor, o destino já tinha traçado a rota de pouso perfeita para o lugar onde eu finalmente encontraria a minha trégua... e a pessoa cujos olhos calmos mudariam completamente o rumo da minha história.

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