Capítulo 4

 POV: Luiza Mazzetti

O cheiro de maresia misturado ao perfume de jasmim da cerca viva clareou um pouco a minha mente no fim daquela tarde. A presença da Mari e da Gabi tinha operado um milagre na minha energia; a atmosfera pesada de luto pelo fim do noivado deu lugar a uma sensação de acolhimento que eu não sentia há meses. No entanto, a tão sonhada paz da rua de terra batida durou pouco.

Por volta das cinco da tarde, o som de risadas altas, música eletrônica abafada e o ronco de mais três carros importados anunciaram que o isolamento do vizinho ao lado havia chegado ao fim. Da janela do meu quarto, enquanto me arrumava, vi uma caminhonete de luxo e dois SUVs estacionarem na propriedade dele. Uma penca de caras jovens, vestindo roupas de marca, bonés e carregando caixas de som e mochilas, desceu dos veículos trocando abraços calorosos e piadas internas. Os "parças" tinham chegado. O retiro espiritual de Neymar Jr. havia oficialmente se transformado em um quartel-general da diretoria.

— Olha lá, o bonde dos desocupados chegou — Mari comentou, aparecendo no batente da porta do meu quarto, terminando de prender um brinco de argola dourada. Ela usava um vestido longo de linho cru, perfeitamente alinhada para o nosso jantar. — A tranquilidade durou duas horas.

— Pelo menos eles estão trancados lá dentro por enquanto — respondi, passando um batom nude e me olhando no espelho. Escolhi um vestido midi preto, simples, e uma rasteirinha. Nada muito elaborado, afinal, estávamos na praia. — Vamos logo antes que eles resolvam ligar o som no talo.

Nosso destino era o Manacá, um restaurante super charmoso e um pouco mais reservado, escondido entre a vegetação nativa da região, conhecido pelos pratos de frutos do mar incríveis. Eu precisava de uma boa massa e de uma taça de vinho para coroar aquele dia de desabafos.

Quando chegamos lá, a iluminação suave das velas e o som baixo de bossa nova ao fundo me fizeram relaxar os ombros quase instantaneamente. Conseguimos uma mesa excelente, em um canto ligeiramente mais reservado do salão, perto de uma parede de cobogós que dava para o jardim iluminado.

— Uma salva de palmas para nós, que sobrevivemos à pior semana do ano — Gabi disse, levantando sua taça de vinho branco assim que o garçom serviu a nossa primeira rodada.

— À nossa arquiteta favorita — Mari brindou, sorrindo. — Que o próximo capítulo da sua vida tenha menos embustes e mais projetos premiados.

Sorri, sentindo um calor genuíno no peito ao brindar com elas. Passamos a primeira meia hora rindo de histórias da faculdade e atualizando as fofocas do nosso círculo de amigos de São Paulo. Pela primeira vez em semanas, a sombra do Gustavo não parecia tão gigante sobre a minha cabeça.

O clima de leveza, contudo, mudou de figura quando uma movimentação sutil na entrada do restaurante chamou a atenção do salão. O gerente do local correu em direção à porta com uma postura visivelmente ansiosa, e o burburinho nas mesas ao redor diminuiu de tom.

Olhei discretamente por cima do ombro.

Um grupo de cerca de seis homens entrou, guiado pelo gerente em direção à maior mesa do restaurante, localizada na área central. No meio deles, tentando manter uma postura discreta que era absolutamente impossível de alcançar, estava ele. Neymar usava uma calça jeans clara, uma camiseta preta básica de grife e um boné virado para trás. Ele parecia consideravelmente mais animado do que na véspera, rindo de algo que um rapaz baixo ao seu lado cochichava em seu ouvido, mas ainda ostentava um ar levemente distante, como se estivesse ali apenas de corpo presente.

— Não acredito — Gabi sibilou, inclinando-se sobre a mesa com os olhos arregalados. — Eles vieram jantar aqui. O destino está de sacanagem com a sua cara de ranço, Luiza.

— Finjam demência. Não olhem — ordenei em um sussurro tenso, endireitando a postura e fixando meus olhos estritamente no meu prato de risoto de camarão. — Nós estamos aqui para nos divertir. Ele que fique com o circo dele lá.

— Ele é mais bonito pessoalmente, tenho que admitir — Mari murmurou, arriscando uma olhada rápida de soslaio. — Mas a vibe de "menino mimado" é real. Olha o tamanho do relógio daquele homem.

Tentei ignorar a presença deles a todo custo, mas a mesa de Neymar ficava a poucos metros da nossa, na linha diagonal da minha visão. Era impossível não notar as risadas abafadas, os garçons se desdobrando em três para atendê-los e os flashes discretos de outros clientes tentando tirar fotos sem serem pegos pelos seguranças que esperavam discretamente perto da entrada.

Em um determinado momento da noite, enquanto a Mari gesticulava dramaticamente contando uma história sobre um cliente difícil do escritório, eu levantei os olhos para pegar a minha taça de vinho.

Foi um erro de cálculo.

Exatamente no mesmo segundo, o vizinho do lado virou o rosto na direção do nosso canto. Nossos olhares se cruzaram em cheio no meio do salão à meia-luz.

Senti uma descarga de adrenalina instantânea correr pela minha espinha. Minha primeira reação foi sustentar o olhar, deixando transparecer toda a minha antipatia e a barreira invisível que eu tinha contra ele pelo que sua empresa fizera à minha família. Eu queria que ele soubesse que, ali, ele era apenas o vizinho indesejado.

No entanto, a reação dele me deixou confusa. Os olhos dele se estreitaram levemente, não com arrogância, mas com um brilho sério, focado. Ele não desviou de imediato. Ficou me encarando por longos segundos que pareceram uma eternidade. Meu coração batia rápido, uma mistura de raiva e nervosismo. Será que ele me reconheceu da varanda?, pensei, sentindo minhas bochechas arderem. Não, não fazia sentido. Ele mal tinha me visto no escuro daquela noite, e a distância era grande. Devia ser apenas impressão minha.

— Luiza? Terra chamando Luiza — a voz da Gabi me trouxe de volta à realidade.

Pisquei, desviando os olhos bruscamente e focando na minha amiga. Olhei para o meu prato, irritada comigo mesma por ter me deixado abalar por um simples olhar de corredor. Pelo canto do olho, vi que um dos amigos dele o chamou, quebrando a nossa conexão silenciosa. Voltei a prestar atenção na conversa das meninas, tentando enterrar aquela sensação incômoda de que os nossos mundos estavam perigosamente próximos.

POV: Neymar Jr.

O jantar com os moleques estava barulhento, exatamente como eu sabia que seria. Eles tentavam me animar, faziam piadas, relembravam histórias antigas, mas a verdade é que a minha cabeça ainda estava pesada. Cada vez que o meu celular vibrava no bolso com uma mensagem da assessoria ou uma notificação de advogado, meu estômago dava um nó. A situação com a Bruna estava longe de se resolver, e o clima tenso da separação parecia me perseguir até ali.

Para tentar me desligar um pouco, mudei de postura na cadeira e passei os olhos pelo salão do restaurante. O lugar era reservado, com uma luz suave, bem diferente dos lugares badalados que costumávamos frequentar.

Foi aí que eu a vi.

Ela estava sentada em uma mesa de canto, com mais duas amigas. Estava com um vestido escuro, os cabelos soltos e uma postura elegantemente distante de tudo ao redor. No mesmo instante em que olhei, ela levantou os olhos da taça de vinho e me encarou de volta.

Meus pensamentos travaram. Aqueles olhos.

Era a mesma menina da varanda da casa ao lado. A vizinha que tinha me observado chegar no meio do meu pior momento na noite anterior. No escuro da praia, eu não tinha conseguido ver os detalhes do seu rosto, mas a intensidade do olhar era inconfundível. Ela me olhava com uma seriedade quase fria, sem o brilho de fã, sem o sorriso de quem quer puxar assunto, e sem a curiosidade invasiva das pessoas comuns. Era um olhar que parecia enxergar através de mim.

Fiquei preso ali por alguns segundos, curioso com aquela resistência silenciosa que ela emanava. Quase sem querer, gravei os traços do rosto dela na mente antes que ela desviasse os olhos abruptamente, visivelmente desconfortável por ter sido pega me encarando.

— Ei, Juninho! Tá no mundo da lua, parça? Olha isso aqui que o Gil acabou de mandar — a voz do Cris me puxou de volta, me estendendo a tela de um celular.

— Tô vendo, tô vendo — respondi, forçando uma risada para disfarçar o foco perdido.

Voltei a dar atenção aos moleques, mas o clique já tinha sido feito na minha cabeça. Peguei meu celular discretamente por baixo da mesa, abri o Instagram e cliquei na localização do restaurante. Rolei as fotos recentes por alguns segundos até encontrar uma postagem feita há poucos minutos. Era uma foto conceitual daquela mesma mesa de canto, com uma legenda sobre "fugir do barulho".

luizamazzetti: Luzes suaves e vinho para acalmar o peito. Há cantos que acolhem a alma quando o mundo lá fora decide fazer barulho demais. ✨🍷#manaca

Cliquei no perfil. Luiza Mazzetti.

Olhei para a foto de perfil dela e depois, de relance, para a mesa no canto do salão. Era ela. Dei um leve toque duplo na tela, deixando uma curtida na publicação antes mesmo de pensar nas consequências, e guardei o celular no bolso com um pequeno sorriso de canto.

Camburi tinha acabado de ficar um pouco mais interessante.

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