Capitulo 3

 POV: Luiza Mazzetti

O barulho irritante do motor de uma Ferrari preta roncando na garagem vizinha foi o meu despertador oficial na manhã seguinte. Abri os olhos a contragosto, encarando o teto de madeira clara do quarto. Eu passei a noite inteira rolando na cama, dividida entre os flashes mentais do meu próprio término humilhante e a lembrança daquele olhar cansado que o Neymar havia direcionado à minha varanda na noite anterior. O ranço matinal já acordou ativado com sucesso.

Olhei para o celular na cabeceira. Sete e meia da manhã.

— Ninguém precisa acelerar um carro esportivo a essa hora em uma rua de terra batida — resmunguei para o travesseiro, puxando a coberta até as orelhas na tentativa fracassada de abafar o som.

A minha vontade era passar o resto do dia ali, chafurdando na minha própria melancolia, alimentada a base de café preto e autopiedade. Eu precisava desse isolamento. Precisava do silêncio que aquela casa prometia antes de o "Dono da Bola" decidir se mudar para o lado.

Meus planos de reclusão total, no entanto, foram brutalmente assassinados cerca de duas horas depois.

Eu estava na cozinha, vestindo uma calça de moletom velha e uma camiseta três vezes maior que o meu tamanho, esperando a água do café ferver, quando o som de uma buzina estridente e repetida ecoou do lado de fora do portão da nossa casa. Franzi a testa, estranhando. Sandra tinha folga naquele dia, então caminhei até a janela da sala, arrastando os chinelos, e afastei a cortina.

Um Jeep Renegade azul-escuro estava estacionado bem na frente da entrada. E, penduradas para fora das janelas do carro, gritando o meu nome como se estivessem em um trio elétrico, estavam Mariana e Gabriela.

Minhas duas melhores amigas desde a época da faculdade de Arquitetura.

— Não, não, não... — sussurrei, meus olhos se arregalando enquanto o pânico misturado com a surpresa corria pelas minhas veias.

Corri até o portão, abrindo a trava eletrônica. Antes mesmo que eu pudesse cruzar o jardim, a porta do carro se abriu e a Mari desceu, usando óculos escuros gigantes e carregando uma bolsa de praia que parecia pesar uma tonelada. Logo atrás, a Gabi desceu do banco do motorista com uma caixa de papelão cheia de potes de sorvete, salgadinhos e o que me pareceu claramente serem três garrafas de vinho.

— Nós chegamos, sua maluca! — Mari gritou, correndo na minha direção e me envolvendo em um abraço sufocante de urso que quase me tirou o fôlego.

— Mas o que... O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei, a voz falhando enquanto tentava processar a cena. Olhei para a Gabi, que se aproximou com uma expressão que misturava acolhimento e determinação.

— Você achou mesmo que ia terminar um noivado de quatro anos, sumir do mapa no meio de uma crise no escritório e que a gente ia deixar você mofar aqui sozinha? — Gabi perguntou, usando o pé para empurrar o portão e entrando na casa como se a propriedade fosse dela. — Entra, Luiza. O serviço de resgate emocional Mazzetti chegou.

Fechei o portão e as segui para dentro, ainda em choque. Bastou um minuto olhando para as duas descarregando suprimentos de sobrevivência pós-término na bancada da minha cozinha para a ficha cair.

— Foi a minha mãe, não foi? — perguntei, cruzando os braços e encostando o quadril na mesa de jantar.

Mari tirou os óculos escuros, jogando-os na bancada, e me olhou com uma seriedade rara em seu rosto sempre brincalhão.

— Dona Regina ligou para a Gabi ontem à noite, chorando, dizendo que você estava muito abatida e que tinha fugido para cá de madrugada. Ela estava apavorada de você ter uma crise de ansiedade sozinha. Lu, você sumiu do grupo do WhatsApp há três dias. A gente sabe o quanto você é orgulhosa e odeia pedir ajuda, mas não dava para te deixar aqui isolada com os seus monstros.

A menção ao término e ao cuidado da minha mãe quebrou a última barreira de resistência que eu estava tentando manter desde que cheguei a Camburi. Senti meus olhos marejarem instantaneamente. A Gabi largou os potes de sorvete na pia e caminhou até mim, me puxando para um abraço apertado. A Mari se juntou a nós segundos depois. Ficamos ali, as três espremidas na cozinha, enquanto eu finalmente desabava em um choro ruidoso que estava preso no meu peito há dias.

Era o choro do cansaço, da frustração de ver a vida perfeita que planejei desmoronar e do medo do futuro instável que me aguardava em São Paulo.

— Vai ficar tudo bem, amiga. Aquele idiota do Gustavo não merecia um terço do seu esforço — Mari sussurrou, acariciando meu cabelo. — E o escritório a gente dá um jeito. Você é a melhor urbanista que eu conheço.

Depois de longos minutos de desabafo, lágrimas e muitos lenços de papel espalhados pelo balcão, a tempestade interna finalmente cedeu, dando lugar a uma calmaria confortável. Sentamos no chão da sala de estar, ao redor da mesa de centro, dividindo uma colherada de sorvete de doce de leite direto do pote, exatamente como fazíamos nos tempos de faculdade quando um projeto dava errado.

— Tá, agora que o momento melodrama passou... — Mari falou, limpando o canto da boca e olhando pela grande parede de vidro que dava para o quintal e para a praia. — Que palácio cafona de vidro é aquele ali do lado? Não tinha essa casa da última vez que vim aqui.

Suspirei de lado, a menção à propriedade vizinha trazendo de volta o meu ranço habitual.

— É a fortaleza do Neymar. Ele chegou ontem à noite.

A Gabi quase engasgou com a colherada de sorvete, os olhos arregalados.

— O quê?! O Neymar? O camisa 10? Ele está aqui do lado? Luiza, você está me dizendo que o homem mais cobiçado e falado do país é seu vizinho de cerca viva?

— Não começa, Gabi — avisei, séria. — Vocês sabem perfeitamente quem ele é e o que ele tentou fazer com a tia Ester no ano passado. Para mim, ele é só o cara arrogante que achou que podia privatizar a nossa praia e expulsar a minha família daqui com um caminhão de dinheiro. Minha empatia por ele é menor que zero.

— Ih, é verdade! Tinha esquecido da treta da incorporadora imobiliária — Mari lembrou, franzindo o cenho. — Mas gente, o cara está saindo em todos os portais. Dizem que ele e a Bruna Biancardi terminaram de vez e que o clima está pesadíssimo nos bastidores. A internet está implodindo.

— Pois que imploda bem longe de mim — retruquei, levantando-me para pegar um copo de água. — Eu vim para cá em busca de paz. Não quero saber de jogador mimado, de polêmica de traição ou de paparazzi cercando a minha calçada.

Caminhei até a varanda para respirar um pouco de ar puro, sendo seguida pelas duas. O dia tinha aberto um pouco, e o sol começava a rasgar as nuvens pesadas. Olhei em direção à praia e, para o meu completo azar, a silhueta do vizinho indesejado estava lá.

Ele estava caminhando sozinho na beira da água, vestindo uma bermuda preta e uma camiseta larga. O vento balançava o seu cabelo, e ele chutava uma pedrinha na areia com as mãos enterradas nos bolsos, parecendo completamente alheio ao mundo. Distante de toda a pompa de rei do futebol.

— Olha lá... — Gabi sussurrou, parando ao meu lado no corrimão e observando a cena. — Ele parece... meio deprimido, não acha? Nem parece o cara que faz festas em iates.

— É o teatro dele para a mídia ter pena — resmunguei, cruzando os braços de forma defensiva, embora o meu peito tivesse dado aquele mesmo aperto estranho da noite anterior ao vê-lo tão isolado. — Homens como ele não sofrem, Gabi. Eles apenas recalculam a rota do próximo milhão.

Mari deu uma risadinha, me abraçando de lado por cima dos ombros.

— Bom, seja lá o que o seu vizinho encrenqueiro esteja passando, o foco aqui é você. Hoje à noite vamos abrir aquele vinho, colocar uma playlist nostálgica e você vai esquecer que o Gustavo — e o Neymar — existem. Combinado?

Olhei para as minhas duas amigas, sentindo uma onda genuína de gratidão aquecer meu peito. O caos na minha vida ainda estava longe de ser resolvido, mas ter as duas ali, dividindo o peso comigo, fazia o fardo parecer um pouco mais leve.

— Combinado — respondi, sorrindo de verdade pela primeira vez em dias.

Mari deu um tapinha animado no meu ombro e puxou a Gabi de volta para a sala, já discutindo qual seria o primeiro sabor de sorvete que iríamos atacar. Antes de segui-las para o interior da casa, balancei a cabeça de leve e olhei uma última vez para a linha do horizonte. A silhueta escura do vizinho continuava lá na beira da água, diminuindo à medida que ele caminhava em direção à ponta extrema da praia, até sumir completamente de vista atrás das rochas.

Dei as costas para o mar, empurrei a porta de vidro e entrei, deixando o vento frio do lado de fora.

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