Capítulo 5
POV: Luiza Mazzetti
O sol de Camburi finalmente tinha decidido dar as caras, transformando o céu em um azul limpo e aquecendo a manhã. Enquanto Mari e Gabi ainda dormiam no andar de cima, peguei uma xícara de café, uma garrafa d'água e me sentei na mesa da varanda para olhar meu celular antes de o dia começar de verdade.
Geralmente, minhas notificações eram tranquilas: algumas curtidas em projetos do escritório, comentários das minhas amigas ou e-mails de clientes. Mas, no segundo em que abri o aplicativo, a aba de alertas parecia prestes a explodir.
+99 notificações
+99 solicitações de mensagem
18.4K novos seguidores
— O quê?... — murmurei para mim mesma, piscando rápido para ver se meus olhos não estavam me enganando.
Meu coração deu um salto estúpido no peito. A primeira coisa que pensei foi que algum projeto antigo do meu escritório tinha sido repostado por um grande veículo de arquitetura. Mas, ao clicar na aba de marcações, o cenário era completamente diferente.
Eram centenas de prints da minha própria foto do risoto no Manacá, postada na noite anterior. Perfis com nomes estranhos, fã-clubes e páginas de fofoca me marcando em montagens lado a lado com ele.
Desci a tela com o polegar trêmulo, até que meus olhos travaram na notificação original, perdida no meio daquele oceano de alertas:
@neymarjr curtiu a sua publicação.
Eu congelei na cadeira.
@neymarjr. O selo verificado azul brilhava na tela como um holofote.
As peças do quebra-cabeça se juntaram em um segundo. O olhar fixo dele no restaurante ontem à noite não tinha sido impressão minha. Ele tinha entrado na localização do Manacá, achado a minha foto e deixado aquele Like ali.
Antes que eu pudesse processar a raiva, meu aplicativo atualizou sozinho e a primeira marcação no topo era de uma grande página de fofocas:
@gossipdodia: AFFAIR EM CAMBURI? 💣 O jogador Neymar Jr., recém-separado, movimentou a web ao curtir a foto recente da arquiteta paulistana Luiza Mazzetti (@luizamazzetti). Ambos jantaram no mesmo restaurante ontem à noite no Litoral Norte de SP. Fontes relatam clima de intimidade entre os dois. Seria ela o novo pivô da fila andar para o camisa 10? 👀 O que acharam?
Uma onda de calor subiu pelo meu pescoço, acompanhada por uma sensação horrível de náusea.
Os comentários da publicação da fofoca já estavam totalmente fora de controle: "Mais uma querendo fama no nome do cara."
"Coitada da Bruna, ele não respeita nem a mãe das filhas."
"Claramente essa arquiteta vazou a foto pra aparecer."
— Meu Deus... — sussurrei, sentindo as mãos gelarem.
Eu não ia alimentar aquele circo. Não ia postar indireta, não ia me dar ao trabalho de responder a ninguém e muito menos dar palco para página de fofoca inventar teoria. A melhor resposta para a ignorância era o silêncio absoluto.
Sem hesitar, fui direto nas configurações da minha conta. Troquei a conta profissional de pública para privada, bloqueiei as mensagens de desconhecidos e fechei o aplicativo. Trancar o perfil era a minha única forma de construir um muro entre o meu mundo e a loucura do dele.
Precisando respirar ar puro e tirar o aperto do peito, calcei meus chinelos e saí de casa a passos largos em direção à praia. A areia molhada e o barulho ritmado das ondas eram o único remédio que eu queria naquele momento.
Caminhei por cerca de vinte minutos ao longo da orla deserta. O vento gelado do mar aos poucos foi acalmando o meu ritmo cardíaco. Quando me virei para fazer o caminho de volta, perto da área de vegetação que separava as casas da praia, notei um homem de bermuda e boné virado para trás correndo em minha direção, segurando um celular na mão.
Conforme ele se aproximou, percebi que não era o Neymar, mas um dos amigos que estavam com ele na mesa do restaurante na noite anterior.
— Licença! Luiza, né? — o rapaz parou a poucos metros, um pouco ofegante, colocando as mãos no joelho. — Desculpa te abordar assim na praia, com certeza você não me conhece. Eu sou o Gilmar, amigo do Juninho.
Sustentei o olhar, cruzando os braços e mantendo uma distância segura. Minha postura permanecia ereta e defensiva.
— Oi. Pois não?
— Olha, eu vi que você acabou de privar o seu perfil e imagino o estresse que você tá passando — Gilmar disse, com um tom de voz genuinamente constrangido e amigável. — Eu só vim aqui porque o Juninho me pediu pra ver se você ainda tava caminhando por perto. Ele tá mal pra caramba com essa palhaçada da internet.
— Ele devia pensar antes de sair clicando na foto dos outros se sabe o peso que o nome dele tem — respondi, sem suavizar o tom.
— Eu concordo totalmente com você — Gil se apressou em dizer, levantando as mãos em sinal de paz. — De verdade. Mas, papo reto? Foi sem querer. Ele tava me mostrando a foto do risoto do restaurante porque a gente tava comentando do prato, foi rolar a tela pra ver a legenda e acabou dando o dois toques sem perceber. Quando viu o estrago, tirou a curtida na hora, mas essas páginas têm robô pra printar tudo.
Suspirei fundo, olhando para o mar por um segundo antes de voltar os olhos para ele.
— O dano já foi feito, Gilmar. O meu nome e a minha profissão estão sendo jogados em páginas de fofoca como se eu fosse um pivô de separação alheia.
— Eu sei, e ele sabe disso. O Juninho pediu pra te dizer pra você ignorar completamente essas especulações. O pessoal da assessoria dele já tá em cima dos portais pra derrubar as matérias e abafar o assunto. Ele mandou te pedir desculpas pelo transtorno... ele detesta envolver quem não tem nada a ver com a bagunça dele.
Aquelas palavras me pegaram um pouco de surpresa. Eu esperava a arrogância típica de uma estrela do futebol que não se importa com os danos colaterais ao seu redor, mas a atitude de mandar o amigo me procurar para explicar o ocorrido e pedir desculpas mostrava um lado bem diferente do que a mídia pintava.
— Agradeço a explicação — disse, com o tom de voz um pouco mais brando, embora ainda reservado. — Meu perfil já está privado e eu não pretendo dar margem pra nenhum tipo de assunto. Só espero que a assessoria dele realmente resolva isso rápido.
— Vai resolver sim, fica tranquila — Gilmar deu um sorriso leve e simpático. — E desculpa de novo pelo incômodo. Se precisar de qualquer coisa em relação a isso, a gente tá na casa do lado.
Assenti com a cabeça e ele me deu um aceno antes de se virar e caminhar de volta em direção à mansão vizinha.
Continuei meu caminho pela areia, sentindo o peso no peito diminuir um pouco, mas com uma estranha sensação no ar. Ao olhar de longe para a varanda da casa dele, vi uma silhueta de boné e moletom encostada no parapeito, observando a praia. Por um segundo, soube que o Neymar estava ali, assistindo àquela conversa de longe.
Ele podia até ter curtido a foto sem querer... mas o nó que acabara de ser dado entre os nossos caminhos não parecia nem um pouco acidental.
Ansiosa para o próximo, posta logo por favor
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